Praticagem São Francisco

Histórico da Praticagem do Porto de São Francisco do Sul


Por  Mário Bernstorff,
Prático da Barra e Porto de São Francisco do Sul



Os primeiros navegantes e descobridores das terras de além-mar ao aproximarem das costas desconhecidas sempre usavam batedores que iam primeiro, com embarcações miúdas, pesquisar as profundidades para uma navegação segura na entrada de rios e canais.

Já naquela época se usava um determinado serviço de praticagem e mesmo Binot Paulmier de Gonneville assim o fez quando aportou , em 1504, na costa de Santa Catarina.

O Serviço de Praticagem em nosso porto iniciou-se oficialmente com a organização, pela Marinha, das Corporações de Práticos. Uma seção da Corporação de Práticos do Estado de Santa Catarina foi aqui estabelecida constando na ocasião os práticos: Severino Neucheffer de Oliveira, José Celestino Corrêa, Olímpio Pereira Lima, Tibúrcio Pereira Lima, Pedro Pereira Lima, Jurandir Carvalho, Polydoro Neucheffer de Oliveira, Otávio Ferreira e João Giacomelli. Este último veio a falecer em 19 de julho de 1954 no Posto de Praticagem, vítima de acidente no trabalho, perecendo afogado.

O primeiro posto de serviço foi estabelecido na Ilha da Paz onde a Marinha construíra o farol e os alojamentos do pessoal. Na cidade a sede situava-se no prédio junto ao armazém Santista, atual Portal Naval. O transporte do prático era feito do porto para a barra e vice-versa através de uma pequena lancha de nome “Atalaia” que, devido à pequena potência de seu motor, levava de duas e meia a três horas de viagem até a ilha, conforme a maré, de enchente ou vazante. Do posto na Ilha para os navios os práticos eram transportados em canoa a remos, aonde dois remadores iam à voga de cada bordo e o patrão na popa no remo de pá, também a guisa de leme. A manobra de abordagem aos navios era difícil e perigosa, pois a canoa se posicionava de popa para a proa do navio e então ia escorregando pelo costado do mesmo que vinha com máquina parada e no menor seguimento. O remador que vinha do lado do costado do navio retirava o remo dágua e passava para a proa da canoa a fim de receber um cabo do navio e passá-lo o mais rápido possível em meia volta no banco de proa. Este cabo era dado um pouco a vante donde ficava prolongada a escada do prático ou “escada quebra peito”. Solecando aos poucos esse cabo o marinheiro da canoa colocava-a na posição safa junto á escada e então o prático subia; aí então era largado o cabo e o patrão manobrava para abrir e afastar do costado. Esta faina era tremendamente dificultada nas ocasiões de mau tempo e com mar encapelado.

Durante a Segunda Guerra Mundial esse atendimento aos navios mercantes e de guerra era feito, muitas vezes, na distância de até uma milha fora do Arquipélago das Graças, pois havia a determinação de “black-out” ou escuridão total, onde até o farol permanecia apagado e os navios tinham, de tomar os práticos bem fora da barra. Ainda durante a guerra havia um plantão feito pelos práticos de atalaia na ilha, onde num livro de registro, eram anotados todos os movimentos de navios.

Conta-se que, naquela ocasião em altas horas de determinada noite escura de lua nova, o Prático e mais os três remadores saíram do Posto da Ilha da Velha para atender a entrada de um contra torpedeiro da Marinha, que fazia patrulhamento na costa, tendo ficado este a quase uma milha por fora da Ilha da Paz. O esforço para chegarem até lá em canoa a remo foi enorme e cansativo. Embarcado o Prático, este teria reclamado, ao comandante, a distância que o navio ficara, sugerindo que ele deveria ter-se aproximado mais ao posto, ao que o mesmo, energicamente respondeu: - “Você quer que eu leve o navio na cama para você ?”. Explica-se: os tempos eram de guerra e as tensões muito grandes devido a presença de submarinos inimigos em nossa costa.

Havia a escala de prático de porto e prático de barra com quatro dias pôr período.

Achou-se conveniente, então, passar o posto de serviço, na barra, para a Ilha da Velha, hoje mais conhecida como “Ilha dos Práticos”. Aí se destacou então, o marinheiro patrão, Manoel Bento Ferreira que transportou de canoa entre as ilhas todos os pertences do posto, inclusive desmontada peça pôr peça, uma pequena casa de madeira que veio a servir como primeiro alojamento dos práticos. Conta-se que “Mané Bento”, como ficou conhecido, era muito querido e respeitado por todos e mesmo pelos práticos que dele acatavam os conselhos, devido ao seu grande conhecimento das coisas do mar. Quando, pequenas embarcações de pesca, ali chegavam, de arribada devido ao mau tempo, os tripulantes tinham da parte do Mané Bento a melhor acolhida na ilha, desde que se dispusessem a pegar na enxada e ajudar na roça ou nas tarefas do posto da ilha. Quem trabalhava recebia, de bom grado, agasalho e comida enquanto lá permanecesse arribado.

Em 1980 a Praticagem dedicou uma homenagem póstuma a Manoel Bento Ferreira dando seu nome para o primeiro atracadouro em forma de rampa, da Ilha da Velha, que ficou marcado com uma placa de bronze num granito com a inscrição: “Porto Manoel Bento Ferreira” – 1980 - Homenagem dos Práticos”. Em seu nome ficaram também homenageados todos os mestres, patrões, marinheiros, remadores e familiares que ali viveram dando sua parcela de contribuição para esse serviço tão importante à Segurança da Navegação. Entre eles destacaram-se: Inocêncio Hilário da Maia, Pedro Germano Gonçalves, João Antônio dos Santos, Júlio dos Santos, Alcides Fernandes Corrêa, Valdevino José Rosa, Francisco Dias de Oliveira, Arlindo Camilo Machado, Brasiliano João Nunes, José Quirino de Souza, Antônio Sabino, João Azeredo, João Bento Ferreira (Jóca), Abílio Amarante e muitos outros.

Da Ilha da Velha contam-se muitas histórias algumas até de assombrações, almas penadas e de supostos tesouros lá enterrados.

Ainda no tempo da Corporação, a lancha “Atalaia” foi equipada com moderno motor de 50 HP o que veio agilizar o transporte dos práticos.

Pôr volta de 1960 a Marinha desativou as Corporações de Práticos e permitiu que os profissionais se organizassem em Associações de Práticos na forma de trabalhadores avulsos e de acordo com a C.L.T.

Nessa ocasião ainda permaneciam os associados José Celestino Corrêa (“Zé Moisés”), Jurandyr Carvalho, Olímpio Pereira Lima, Polydoro Neucheffer de Oliveira e Otávio Ferreira. Com a aposentadoria de José Celestino Corrêa e Olímpio Pereira Lima entraram no quadro Evaldo Salvado Doin e Francisco Antônio de Oliveira; na aposentadoria de Polydoro Neucheffer de Oliveira entrou Carlos Alberto de Oliveira e com o falecimento de Jurandyr Carvalho foi efetivado Mário Bernstorff como Praticante de Prático passando a categoria de “Prático” logo, na aposentadoria de Otávio Pfau Ferreira.

O Posto de Praticagem da Ilha da Velha ganhou um pouco mais de modernidade com a instalação de dois conjuntos de geração elétrica, uma estação rádio em VHF, motor para a canoa e nova lancha: “Atalaia II”.

Muito mais tarde com o falecimento de Francisco Antônio de Oliveira entrou para o quadro de Práticos, Rafael Bortoletto Correa que infelizmente veio a falecer prematuramente com pouco tempo na profissão.

Pôr reivindicação da Associação de Práticos a Marinha aumentou o número de profissionais Práticos para 06 (seis) e então entraram na Praticagem: Querubim Durand Pinheiro, Carlos Kelm e João da Cruz Araújo Costa , este último desistindo da função por motivos particulares. Entraram então, mais tarde os novos práticos Salvador Siqueira transferido da Bacia Amazônica e Gustavo Fontenelle Matias, vindo da praticagem de Maceió. O prático Evaldo Salvado Doin aposentou-se e mais recentemente também o prático Mário Bernstorff. Os Práticos se revezam numa escala de serviço que permite o devido repouso entre períodos de fainas.

A história da Praticagem em São Francisco do Sul está intrinsecamente ligada ao canal dragado na barra e aquele de acesso ao porto.

Em 1980 começaram os estudos e sondagens para a implantação de um canal artificial na entrada da barra do porto de São Francisco do Sul.

A primeira opção de alinhamento seria em direção nordeste (NE) passando pelo norte (N) do Banco João Dias. Entretanto os levantamentos geofísicos do local detectaram rocha extremamente dura no subsolo do banco. Isto originou a escolha de um outro alinhamento, agora em curva, contornando o banco defronte ao Forte Marechal Luz e depois em linha quase reta pelo sul (S) do Banco João Dias e saindo entre as ilhas Mandijituba e Sororoca Grande, em profundidades mínimas dragadas na ocasião em 10 (dez) metros.

A draga que iniciou a abertura do canal foi a “Minas Gerais” da Companhia Brasileira de Dragagem efetuando a primeira etapa que ficou na cota de 08 (oito) metros. Mais tarde foi empregada a draga “Rio de Janeiro” sob o comando do Capitão de Cabotagem Francisco (Chico) Valentim que concluiu a dragagem final elevando a profundidade para 10 (dez) metros. Já, naquela ocasião, “Chico Valentim” vaticinava: - “Nós vamos abrir as portas do porto de São Francisco e fazer dele um grande porto do sul do Brasil”. E assim, realmente foi!

Forte assoreamento, entretanto verificou-se posteriormente próximo às pontas dos dois bancos cortados pelo traçado do canal: o Banco do Forte e o Banco João Dias. Em posteriores retificações optou-se por afastar dos bancos, tanto a parte curva como a parte reta do canal o que redundou em menor quantidade de material dragado assim como foram reduzidos os assoreamentos freqüentes.

Com o término da primeira dragagem a Companhia Brasileira de Dragagem retirou as bóias de serviço deixando um ótimo canal dragado na barra sem nenhum balizamento, isto é, quase impossível de ser utilizado com segurança. O Governo Estadual adquiriu três bóias cegas para atender, provisoriamente, somente o tráfego diurno e que serviram longo tempo até serem substituídas por nove bóias luminosas eletrificadas com baterias de acumuladores. Esse fato exigia muita perícia dos Práticos ao demandar o canal com um balizamento tão reduzido que os obrigava a navegar com muitas observações e marcações em terra.

O canal, em 2000 foi dragado para 11 (onze ) metros e agora está aprofundado em 13,5 (treze e meio) metros na baixa mar. Estão instaladas 11 (onze) bóias luminosas que constituem um equipamento de última geração em qualidade e modernidade. São conhecidas por “Bóias Inteligentes”, pois cada uma possui um sofisticado sistema de posicionamento por satélites que envia dados de situação e posição para uma estação de rastreamento na costa e esta por sua vez retransmite , via rádio V.H.F., para o Controle de Tráfego do Porto. O Porto de São Francisco do Sul foi o segundo porto nacional a empregar esse moderno tipo de sinalização náutica. Na área de manobras do porto foram também eletrificadas e passaram a ser luminosas as bóias das lajes:Marcelina, Muxoxo e Vitória.

Para a segurança das manobras dos navios, principalmente graneleiros, o Grupo Wilson Sons mantém no porto uma frota de potentes rebocadores inclusive um azimutal de grande potência de tração.



 
     
   
   
     
     
   
 
 

GALERIA DE FOTOS
Farol da Ilha da Paz
 
Sala de Operações da Atalaia
 
Atalaia de Ubatuba
 
Lancha do Prático
 
Interior da Lancha do Prático
 
Navio sendo Rebocado
 
Navio no Porto de São Francisco do Sul
 
Navio no Porto de São Francisco do Sul
 
Lancha do Prático
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